...ter os nossos próprios heróis!
Sentia uma sede imensa de ensinar, mas sobretudo de aprender e apreender conhecimentos junto das crianças.

Por teimosia de contrariar o medo, escolhi esta escola. Todos acharam que estava estouvada quando comuniquei a decisão de ir estagiar para a escola da Damaia. Escola esta que é frequentada por crianças do Bairro Cova da Moura, 6 de Maio, Estrela de África, etc. Ninguém me compreendia. As pessoas que me rodeavam apenas assimilavam a insegurança a que eu me estava a propor, mas eu via muito mais para alem disso, não temia o perigo, apenas temia o não ser capaz de me impor perante um grupo de crianças… mas consegui!!! Consegui eu e a Paula, a única pessoa que teve a coragem de embarcar comigo nesta aventura e se tornou o meu par pedagógico. “80% da população escolar desta escola são crianças oriundas de África, vivem em bairros degradados e conhecem a pura violência melhor que ninguém!” – Dizia-me um colega de faculdade, tentando-me convencer a desistir da ideia. E depois? Qual é o mal? Também precisam de professores estas crianças.
Não foram necessários demasiados dias para enxergar a realidade, não estava a lidar com crianças, estava a lidar com seres humanos a quem tinha sido furtada a infância. Adultos a quem foi forçada uma vida de experiências desagradáveis. Olhares baços que cintilavam a pequenos gestos de carinho. Expressões amarguradas que sorriam a um simples toque no ombro. Todos estes meninos e meninas tinham uma história de vida que sobrepujava qualquer história de todo o cidadão comum. Assisti durante dois anos a exemplos de sobrevivência humana que me fizeram crescer. Ah como estes olhares me ensinaram a ver o mundo de forma diferente!!!


De todas as histórias houve uma que me marcou substancialmente. A do pequeno e triste Embaló, de 11 anos. Lembro-me do primeiro contacto que tive com este pequenino grande guerreiro. Tinha chegado de Moçambique há quase dois anos, de certo os piores da sua vida. O Embaló não olhava ninguém nos olhos, não falava, nas aulas parecia completamente distante, contudo nas disciplinas teóricas era o aluno que apresentava melhor nota nos testes escritos. Na sala dos professores era comentada a amarga “crónica” do Embaló ter visto o pai a esfaquear a mãe até à morte. Compreendíamos assim o olhar desertor desta criança.
Mas ao contrário dos outros professores, eu e a Paula, sempre respeitámos o espaço do Embaló. Tomámos a atitude de não insistir na obtenção de uma palavra vinda dele e o pequeno percebeu isso. No final de uma aula, quando todos os colegas de turma saíram da sala, o Embaló veio ao nosso encontro e disse: “Isto é para as “storas” e obrigado!” – entregando-nos duas folhas de papel dobradas. Saiu bruscamente da sala a correr. Abrimos de imediato as folhas e qual não foi a nossa surpresa quando nos deparámos com um retrato de cada uma de nós, muitíssimo bem desenhado a traços do pequeno lápis, que o Embaló tinha pedido emprestado a um colega. Um retrato que ainda guardo com carinho, digno de um verdadeiro artista!


No dia seguinte, dirigi-me ao Embaló, coloquei-lhe a mão no ombro e, pela primeira vez, ele olhou-me nos olhos por rápidos instantes. Deparei-me com uma tristeza ímpar naquele olhar que me deixou com um “nó” na garganta, não consegui dizer uma única palavra, apenas lhe coloquei três lápis de carvão em cima das suas folhas. Também não precisei de dizer nada para que percebesse que eram para ele e depressa se apoderou e aconchegou nos seus riscos certeiros.
Não vi o que desenhou, apenas vi que desenhava enraivecido. Foram muitos dias que se seguiram, muitos riscos traçados e escondidos sempre que me sentia a aproximar dele… Até que um dia, deixa cair uma folha para o chão que eu apanho. Nela estava desenhada uma senhora, de um porte belíssimamente altivo, e uma criança. Apanhei a folha do chão e admirei de perto aquele retrato a carvão. Mas o Embaló odiou esta minha atitude. De rompante tirou-me a folha que era dele, arrumou as poucas coisas que tinha e saiu da sala a soluçar de tanto choro. Eu não fui capaz de dizer uma única palavra. Saí atrás dele e encontrei-o, lá estava ele, sentado num recanto do pátio da escola. Tinha parado de chorar, ouvindo-se apenas o seu soluçar e a sua frágil voz. Não me viu nem sentiu os meus passos. Falava para com uma árvore como se da Mãe se tratasse e implorava-lhe ajuda: “Volta Mãe, a nossa bebé precisa de ti”.


Tentei voltar para trás e deixar o Embalo no seu emudecimento, eu seria incapaz de lhe dizer uma palavra que fosse. Senti-me a usurpar um território que me estava proibido. Mas o Embaló sentiu a minha presença e olhou para trás. Pensei que jamais ele perdoaria o facto de me achar ali no seu confessionário. Olhou-me nos olhos, enraivecido e revoltado. Não fugiu, ficou estático e por incrível que pareça, nem por um único segundo tirou os seus olhos dos meus. Confesso que fiquei com medo e assustada, mas impávida e serena pedi-lhe desculpa por estar ali e disse-lhe para ficar e voltar para a aula apenas quando quisesse. Encaminhei-me sozinha para a sala onde estava a Paula com o resto da turma. Mas repentinamente sinto passos a correrem atrás de mim e um soluçar que ainda sou capaz de ouvir. O Embaló chama-me: “Stora precisamos de ajuda, a minha bebé precisa de ajuda”. E abraça-me. Nunca vou esquecer aquele abraço que bradou por amparo e ao qual eu respondi: “Eu sei Embaló! Eu sei!”. Senti que tinha ganho um amigo, um amigo que confiava em mim por ter respeitado o espaço dele, por tê-lo apenas acatado.


Os momentos que se seguiram não os vou descrever, são duras recordações que mexeram comigo e não sou capaz de fazê-lo. Só para perceberem, a bebé do Embaló é a Neila, sua pequena irmã de 5 anos. Depois da morte da Mãe, estas duas crianças ficaram a viver com os avós, que deveriam dar-lhe protecção e carinho, mas não… o próprio avô das crianças era quem mais mal as tratava. Este ser, que nem de homem nem de humano pode ser tratado, violava a pequena e frágil Neila obrigando o Emabaló a assistir a tudo. Tudo isto me foi contado pela criança, daí não querer descrever o que aconteceu.
Para finalizar, hoje em dia o Embaló e a Neila vivem com uma mãe de acolhimento. Nunca perdi o contacto destas crianças nem eles o meu. Todos os meses falamos e muitas das vezes é o próprio Embaló que me liga. Estão a ter apoio psicológico e começam a ser felizes. Sei que se algum dia necessitarem de ajuda vão recorrer a mim e eu estarei sempre cá para os ajudar.


Se há heróis nesta vida… este é o meu pequenino grande herói!
É que às vezes sabe tão bem… ter os nossos próprios heróis!
Um beijinho para a Neila e para o Embaló

22 Comments:
Retrata demasiado bem o que se passa não só nessa escola, como em muitas outras...
Esquecemos que os nossos alunos são pessoas com problemas pessoais e familiares... ser professor é bem mais do que despejar matéria...
Grande lição, a vários níveis. Estou impressionado e ao mesmo tempo maravilhado. É por estas e por outras que o «Karamelisses» já está na galeria do meu «cantinho» na rede.
Força! Boa noite.
MS
Bons dias!!
Nanda, amiga, ser professor nunca deveria ter sido apenas "despejar matéria", mas foi e,infelizmente, em muitos casos ainda continua a ser...
Manuel obrigado pelo link, tal como li no teu cantinho: "Na cultura, no desporto, nas medalhas olímpicas... são portugueses; nos assaltos... já são africanos!". É a mais pura das realidades e as crianças sentem isso logo de pequenos. Para o bom são portugueses e para o mau africanos... enfim... mentalidades retrogadas que não ajudam o pais a crescer...
Um beijinho para vocês!
Até fico sem palavras escritas, o que em mim, por vezes, é raro… mas acontece.
Infelizmente existem muitas vidas como a do Embalo mas, felizmente, ainda existem pessoas como tu.
Parabéns por tudo. Segue o teu caminho que estás no carril certo.
Beijinhos
Obrigado por abraçares esse projecto,a Humanidade agradece-te pela minha voz...beijos,e que a força esteja contigo
Ter os nossos próprios heróis sim, mas a que custo [...] porque terão eles de passar pelo que passaram ?
Se fôr só para termos os nossos heróis, preferia não os ter... se isso fosse sinónimo do contrário do que eles viveram.
Beijocas, Cláudia e inté.
Quero dar-te os PARABÉNS! Pelo teu trabalho, digno de LOUVOR. Que outros te sigam o exemplo.
Obrigada pela tua visita e a "partilha" de Miró sabe sempre bem :-)
Um beijo
Triguito sem palavras?? Não há razão para tal, sobretudo para ti que mexes nas palavras como ninguém! O meu manito poeta nunca fica sem palavras!! ;)
Linger tal como disseste no teu penultimo comentário aqui do meu cantinho: "As crianças como sempre é que pagam os erros do Homem"... Foi o que aconteceu... e somos nós que podemos alterar ou tentar corrigir os erros, mesmo que não tenham sido cometidos por nós! Não custa nada, antes pelo contrário, o que custar é ficar a ver sem fazer nada!! :)
Espectro #999 quem me dera não ter contado esta história, quem me dera não ter este heroi... quem me dera que não houvesse gente a passar por isto... mas há... não vamos evitar a realidade e encará-la de frente...
Betty obrigado, mas os parabéns não são para mim, são para o Embaló que lutou para mudar a vida. SE todos tivessem a força que ele tem também seria diferente!!
Um beijinho grande para todos vocês e reparem no mundo que vos rodeia... mas com atenção!!
Os grandes heróis encontram-se nos momentos e nos locais menos esperados.
Infelizmente, nesta mesma freguesia da Amadora, a par do Embaló, existem muitos outros exemplos que não são muito agradáveis para recordar.
Só com grande esforço de educadores e, inclusive, de moradores, se poderá chegar a resultados mais animadores, principalmente nesta zona da cidade.
olá, descobriste-me agora sou eu quem o faz. Li 5 textos de k gostei. Este fez-me chorar e olha k n/ sou pessoa de lágrima fácil.profissionalmente lidei, convivi, com muitas famílias disfuncionais e as suas crianças, nenhum caso de orte, mas onde quase tudo o resto estava presente. Conheço bem o olhar, a dureza perdida de si próprios e da confiança no mundo. Este teu texto retrata, com rigor e sensibilidade (amor) a história k esperamos seja feliz, de ora em diante, do teu pequeno aluno.
As pessoas andam pedidas e as crianças pagam facturas excessivamete altas.Bj grande por tanta ternura para quem dela necessita.
Concluo bem se concluir k os quadros representados são de tua autoria? parabéns. Bjs e ;)
Amaral é bem verdade o que dizes... contra factos não há argumentos, não é? Há muito a fazer por aquela zona... e por muitas outras, mas naquela é fundamental porque está a alastrar-se a olhos visto a criminalidade naquela zona...
TMara obrigado pelas tuas palavras... :) Os quadros que estão aqui, neste post, não é nenhum da minha autoria!! Da minha autoria tenho uns quantos espalhados pelo blog, mas por acaso não é nenhum destes!!
UM beijinho grande para vocês
Que bela história, amarga e doce, terna e cruel.
Um texto de grande qualidade de uma mulher ainda melhor!
Jinhos
É uma história de vida muito dura, que quase me fazia chorar. Infelizmente à muitos Embalós e Neilas, mas é muito bom poder constatar que à pessoas, como tu, que estão dispostas a fazer e a lutar por um mundo melhor.
Um abraço.
Comoveste-me! É pena é o mundo estar cheio de pessoas que não dão espaço umas às outras, e onde reina a indiferença! Se mais pessoas tivessem a tua generosidade e real vocação para o ensino este mundo seria certamente melhor!
bjs
Também tenho tido alguns alunos parecidos com o Embaló e são sempre um desafio que gosto de enfrentar.
Parabéns!
Cláudia, é por estas e por outras que tenho muito orgulho em ter uma pessoa como tu na minha vida. És muito especial para mim...
Beijo
G-A-I-T-A!!!
não consigo dizer mais nada...
a não ser que há 2 crianças que tiveram a sorte, no meio de tanta maldade, de terem uma aquariana no caminho delas!
Infeliz é pensar que como elas existem tantas sem ninguém que atravesse o seu percurso. Sei bem o que isso é; passei anos a assitir a situações dessas. Mas são elas que nos fazem crescer e ter um coração, muitas vezes maior que tudo...
Sente-te sempre assim: amiga e solidária!!!
Experiência bonita esta, que eu tive o prazer de ouvir. Privilégios...
O que gostaria de dizer, mesmo que tentasse, não o conseguiria fazer tão bem. Resume-se assim
«Nem tudo o que se enfrenta pode ser modificado. Mas nada pode ser modificado enquanto não for enfrentado.»
(James Baldwin)
e, já agora, aproveitando a instância,
«Apenas pelas palavras o ser humano alcança a compreensão mútua. Por isso, aquele que quebra sua palavra atraiçoa toda a sociedade humana.»
(Michel de Montaigne)
CC
Bonito post...
Aquele beijinho!!! ***
Um beijinho enorme para todos. Devo dizer que ainda tentei dar uma resposta a cada comentário, mas a determinada altura fiquei sem palavras...
Carlos obrigado pela visita... há privilégios que valem a pena!! ;)
Alexandre nem é preciso dizer o quanto és especial pra mim e o quanto também me orgulho de ti... tu sabes... eu sei que sabes!!
E mais um beijinho para todos!!!
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